Como apoiar as comunidades indígenas em tempos de pandemia?

A pandemia não acabou. Já são mais de 31 mil casos confirmados e registrados de coronavírus entre indígenas, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Kokama, Xavante, Guajajara, Tikuna, Munduruku, Mebêngôkrê, Macuxi e Baré estão entre os 158 povos afetados pela doença, sendo que já são mais de 790 mortes registradas. Anciões, anciãs, crianças, bebês, grávidas e jovens são vítimas de uma pandemia que se alastra, frente a um governo que não prioriza os direitos básicos dos povos indígenas e segue compactuando com o etnocídio e ecocídio.


Foto: Kamikia Kisêdjê/ISA.

Os povos indígenas, além de terem que lidar com a insuficiência de uma saúde não especializada às demandas das comunidades, também enfrentam uma série de problemas que já vem se intensificando muito antes da pandemia. O incessante ataque e retrocesso do governo aos direitos originários, a invasão dos territórios por madeireiros e garimpeiros, a reintegração de posse, o avanço do desmatamento e da grilagem, o trabalho escravo, a prostituição, a desnutrição, o suicídio e a não demarcação de terras são alguns dos acontecimentos que geram problemas culturais, sociais e ambientais dentro das comunidades.

Campanha #ForaGarimpoForaCovid (Foto: coleraalegria)

A epidemia xawara, ("epidemia-fumaça" ou "febre do ouro") — como denomina os Yanomami — vem sempre acompanhada do crescimento do garimpo, que se aproxima dos territórios mais próximos das cidades até os mais remotos. Na reserva Yanomami, território coberto de mata nativa localizado no interior de Roraima e Amazonas, estima-se a presença de mais de 20 mil garimpeiros. "Os Yanomami estão sendo infectados pelos garimpeiros. As pessoas estão adoecendo. A gente está muito preocupada e muito triste. Onde tem garimpo tem sintomas de Covid-19", conta Dário Kopenawa, liderança do povo Yanomami, em entrevista ao El País.


A Terra Indígena Yanomami está entre as sete regiões mais desmatadas no período em que o coronavírus começou a se espalhar pelo Brasil. Segundo dados publicados pelo ISA, as Terras Indígenas Kayapó, Araribóia, Munduruku, Uru-Eu-Wau-Wau, Karipuna e Trincheira-Bacajá também enfrentam situações críticas. As setes áreas totalizam mais de 2,4 mil hectares de florestas derrubadas, que é equivalente a 15 vezes o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, segundo o ISA. A violência e degradação dos territórios vem acompanhada do aumento de casos de Covid-19.


 A ganância humana encontra-se cada vez mais faminta acelerando o avanço do desmatamento da Amazônia dentro e fora das terras indígenas em tempos de pandemia, além das queimadas no Pantanal e no Cerrado. Enquanto isso, os povos originários, que protegem 80% da biodiversidade global, tornam-se vítimas de mais uma doença trazida pelos brancos, somando-se a doenças infecciosas como o sarampo, a varíola e a gripe, que historicamente dizimaram muitas etnias desde a invasão dos europeus.


São inúmeros e crescentes os casos de racismo, desrespeito e desumanização das sociedades e culturas indígenas. Rituais tradicionais que são realizados quando alguém da comunidade morre estão sendo suspendidos para frear o contágio da doença nos territórios. Muitos indígenas estão com medo de buscar tratamentos e não terem os corpos de seus entes queridos devolvidos à comunidade. “O coronavírus está quebrando a nossa crença. Você não vê o morto, não pode pintar nem abraçar. Todo mundo tem que se afastar. Isso dói, está machucando a nossa espiritualidade”, diz o cineasta Takumã Kuikuro, também em matéria para o El País. O caso sumiço dos corpos dos bebês Yanonami é um exemplo do tamanho descaso e desrespeito com a existência, a vida e a diversidade cultural e espiritual dos povos indígenas. 


Há também uma divergência na contagem de casos entre os dados da Apib e do Ministério da Saúde: os dados do governo não contam os indígenas que vivem na cidade, logo, desconhece a presença de mais de 250 mil indígenas nas áreas urbanas, como aconteceu com o caso da morte da indígena anciã do povo Borari não reconhecida pelo estado. Apesar da prevalência do coronavírus entre a população indígena que vive em áreas urbanas ser cinco vezes à encontrada na população branca, segundo o estudo coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), a política de saúde indígena vigente não atende indígenas que vivem no contexto urbano, negando novamente os direitos básicos dos povos tradicionais.


Mães e pais, filhos e filhas, tios e tias, avôs e avós: a pandemia segue levando guardiões e guardiãs das culturas, contadores de histórias, curandeiros, parteiras, estudantes, artistas, médicos, intelectuais, profissionais, lideranças. Quando se perde a vida de um parente, muitos conhecimentos se vão e muitas histórias se adormecem. Nesses tempos sombrios, as comunidades indígenas se protegem de forma autônoma, aplicando barreiras sanitárias e fazendo o lockdown nas aldeias, cancelando eventos e reuniões internas e fortalecendo a medicina tradicional no tratamento contra o vírus.



O impacto da pandemia na Terra Indígena Xakriabá (Foto: Edgar Kanaykõ)

Há diversas formas de apoiar as comunidades indígenas durante a pandemia, e são muitos os hábitos que devem ser cultivados para além do momento atual. De qualquer modo, considerando o contexto da pandemia, separamos alguns pontos essenciais, de forma bem simples:



1. Colabore com financiamentos coletivos


Apoie da forma que puder os financiamentos coletivos locais. Comunidades de diversas regiões do Brasil estão se mobilizando para a arrecadação de alimentos, EPIs e demais mantimentos durante o isolamento social. Muitas famílias que vivem da venda de artesanatos e turismo precisam respeitar o lockdown para evitar que a doença se espalhe para toda a aldeia. Confira:

*Nas mídias indígenas você também pode encontrar outros financiamentos coletivos.


2. Acompanhe mídias e organizações indígenas


As mídias e organizações compostas por comunicadores indígenas compartilham notícias e atualizações de tudo que está acontecendo com os povos indígenas nas aldeias ou cidades, fazendo uma cobertura única de tudo que acontece através do contato direto com as lideranças, comunidades e organizações. Acompanhe-as nas redes sociais e nos sites:


3. Apoie produtores e empreendedores indígenas


Comprar diretamente de pessoas indígenas é fortalecer a produção local e apoiar as comunidades, fomentando a autonomia, a autossuficência e a economia familiar. Confira a nossa lista de empreendimentos, marcas e produtores indígenas.


4. Apoie os artistas e a arte indígena contemporânea


São muitos os músicos, artistas visuais, artistas plásticos, atores e atrizes, performers, fotógrafos, designers e cineastas indígenas que produzem pensando sempre no coletivo, trazendo através de suas artes visibilidade e fortalecimento para a comunidade a qual pertencem e para a luta indígena. Acompanhe e fortaleça artistas indígenas contemporâneos através das redes sociais, divulgando e apoiando seus trabalhos, mobilizações e eventos; compre suas artes ou indique para amigos e familiares. Conheça e participe de eventos, mostras, festivais e demais projetos culturais que tenha como foco e protagonismo os artistas e a arte indígena contemporânea.


No acervo digital de arte contemporânea do VI você pode conhecer alguns dos diversos artistas contemporâneos de todo o Brasil. Além disso, na plataforma experimental CINENATIVO, você encontra mais de 100 filmes totalmente gratuitos feitos por diversos cineastas indígenas de Abya Yala (América).


5. Compartilhe notícias, projetos e financiamentos


Se você não puder contribuir com os financiamentos coletivos, não deixe de compartilhá-los nas suas redes sociais, além de também divulgar notícias, informações, projetos e o trabalho de artistas e demais profissionais indígenas. As redes sociais se encontram como as principais ferramentas de difusão de informações. Mas não esqueça: sempre verifique se as fontes são confiáveis e nunca compartilhe fake news!


6. Pesquise, escute e deixe os indígenas falarem!

Pesquise, aprenda e escute. O combate ao preconceito e o reconhecimento das pluralidades dos povos indígenas só sera possível através da educação e da informação. É preciso escutar e deixar os indígenas falarem. Muitas coisas podem parecer subjetivas para quem não vive o racismo na pele, e por essa razão, é necessário saber o nosso lugar de fala.


Dialogar é importante para combater qualquer tipo de preconceito, mas não espere que as pessoas indígenas sirvam todas as informações necessárias para que você seja antirracista. Existe uma série de materiais educativos como livros, plataformas de streaming, sites, vídeos, filmes e textos disponíveis na internet. Reconhecer a diferença das narrativas e o racismo que carregamos é o primeiro passo para um caminho de mais respeito e desconstrução.


Obra de Denilson Baniwa (Foto: Divulgação)

Texto de Isa Santana

Para Visibilidade Indígena

Perspectivas indígenas na pandemia (links para conferir):

Outros links:










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